Minha opinião

Tragédias, momentos de agonia e revolta

Absorto em meus pensamentos, contemplo o brilho das estrelas sob o céu anil, enquanto a lua reinava soberba sobre o planeta Terra de noite enluarada. Lua e estrelas contrastando o céu sem nuvens pareciam transmitir uma mensagem de paz e harmonia.

 

Para tornar aquele cenário ainda mais convidativo, estavam a me inebriar o perfume das rosas que rodeiam a dama da noite, deixando também escapar um perfume inebriante das rosas que florescidas, aguardavam a visita do beija-flor.

 

A noite estava linda, a brisa do vento refrescava meu rosto e meus pensamentos fugiam para o tempo de infância. Voltavam para a juventude, a mais bela fase da vida, trazendo à retina, velhos amigos que nunca mais vi. Lágrimas de saudades brotaram de meus olhos e mansamente escorriam pelo rosto como se fossem gotas de orvalho que caem das folhas das árvores nas madrugadas.

 

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A lembrança de tempos de outrora, ora traz a alegria, ora reflete a tristeza daquilo que muito desejamos, mas não logramos alcançar. Logo vem a contrapartida, evocações dos momentos alegres que tanto gostaria de reviver.

 

O cérebro não para e logo me põe nos dias de hoje, trazendo a mensagem que tudo na vida é dinâmico. O momento de dor pode logo em seguida transformar-se em alegria, pois na vida, nada é perene.

 

Neste exato momento a mente me traz aos olhos a cena da represa estourando e ceifando vidas. Brumadinho, que se preparava para festa, fez a alegria se transformar em terra de dor e tristeza. Mais de 200 vidas ficaram soterradas pela lama da tristeza. As lágrimas mal caíram e já em seguida, veio a notícia do atentado em Suzano.

 

Esqueci a beleza da lua, deixei de sentir o perfume das flores e nem a brisa do vento que refrescava meu rosto manteve a paz e a harmonia. Fiquei transtornado, em pensar que a hecatombe de Brumadinho não foi uma ação da natureza, mas fruto da ganância e da insensibilidade do ser humano.

 

Antes mesmo de poder refletir sobre o fato, me vem a pergunta: A morte dos meninos de Suzano foi o quê? Não conseguia refletir sobre os dois fatos. O coração passou a pulsar mais forte, levado pela dor e pela tristeza daqueles dois momentos.

 

Esqueci que tempos antes me deliciava contemplando o firmamento e respirava com vigor o perfume das flores, imaginando quão bela é a obra do criador e afirmando de mim para mim mesmo: Senhor, a vida na terra que criastes é saudável pela fauna e a flora que nos entrega.

 

No mesmo momento em que saudava o criador incriado, com os olhos fechados, pude vislumbrar o desespero daqueles que morreram sob a lama, fruto de insensatez. Da mesma forma, ainda de olhos fechados e horrorizado, lembrava as imagens transmitidas pelos canais de televisão, onde mais de trinta pessoas eram assassinadas. Tal qual Brumadinho, não por obra da natureza, mas também fruto da insensatez e da falta de cultura que grassa neste país.

 

A tragédia de Brumadinho me faz imaginar que o “sapiens” ainda não aprendeu a viver em sociedade, em que pese à evolução social e tecnológica que contribui para o desenvolvimento do bem-estar no mundo material. Em contrapartida a crença espiritual, a cada dia que passa, caminha para uma cratera mais abissal, fazendo-me relembrar do tempo em que o ser humano vivia isolado em cavernas.

 

Buscando encontrar alguma forma para justificar os dois fatos, fico exaltado por não encontrar uma maneira de amenizar a barbárie. Pensei em alguma forma para amenizar a responsabilidade do bicho homem. Imaginei então não serem os fatos, obra do criador, já que aqui estamos para aperfeiçoar o nosso espírito. Concentro-me sobre a evolução do ser humano, lembrando as lições atuais do passado e o que aprendi com Yuval Harari Noal em suas obras, Sapiens e Homo Deus, mas não consigo encontrar como parametrizar os fatos.

 

De repente percebo que o sono que fora buscar respirando ar puro, havia desaparecido. Que as boas lembranças do passado haviam voltados para a caixinha cerebral das emoções alegres, abrindo espaço para a caixa da revolta e da tristeza.

 

Inconsolado e inconformado por não encontrar uma justificativa, a não ser a insensatez, voltei meu pensamento à realidade que me cerca. Foi quando lembrei que outrora havia aprendido que o ser humano está em constante evolução, quase tornando o Deus de si mesmo.

 

Não se pode negar a evolução do mundo material, mas percebo que essa não é a suficiente para encontrarmos a paz. Espiritualmente, nada evoluímos. Enquanto o mundo material não evoluir espiritualmente, nós, seres humanos, nos tornaremos filhos da ganância. Trocaremos o amor de Deus pelo amor ao dinheiro, vivendo de ostentação e destruindo aquilo que nos foi legado para sobreviver.

 

Me pergunto então: De onde vieram as represas? A resposta brota imediatamente. As represas são frutos da mente humana e foram edificadas com o objetivo de armazenar rejeitos imprestáveis para o consumo humano. A parte extraída e aproveitável foi utilizada para satisfazer as vaidades e as necessidades humanas. O rejeito não se ossifica, já o ser humano vira pó, incluindo os instrumentos utilizados no massacre em Suzano.

 

Os pássaros começam a brotar nas árvores e a realidade volta. Lembremos em nossas orações daqueles que partiram, mas sejamos mais fervorosos ao pedir para o criador que tenha compaixão dos entes queridos que ficaram. Sejamos mais espírito do que carne e quem sabe assim, tornaremos o mundo mais feliz. Ainda há tempo!

 

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