Mafra

Professor resgata história de um dos cemitérios mais antigos de Mafra

Eduardo Silva é professor pela Univille e Colégio Excelência. Tem formação em Filosofia, mestrado em Patrimônio Cultural e é doutorando em Comunicação Social

 

As lápides do século passado, tumbas, torres, anjos e ornamentações contam a história de um dos cemitérios mais antigos de Mafra. Localizado no Avencal do Meio, o cemitério de Santa Cruz com quase um século e meio de história, ganhou a atenção do professor universitário Eduardo Silva, 38 anos, que em 2008 iniciou uma pesquisa sobre a origem do local.

 

Cercado pelo mato, lavoura, mas sem casas ou igrejas próximas, o cemitério, que está ativo até hoje, intrigou o professor.

 

“Comecei a me perguntar sobre a história do lugar e consultei pessoas da localidade. A minha ideia era fazer um levantamento histórico e arqueológico do cemitério para ver se haviam condições do local se tornar um patrimônio histórico”, explica.

 

A história do cemitério está ligada à Igreja de Santa Cruz, que existia naquela localidade. Com a construção da Estrada Dona Francisca, a igreja foi realocada e o cemitério que já estava constituído, permaneceu.

 

Segundo Eduardo, a estrada chegou em Rio Negro em 1890 e desde antes, o cemitério já existia. Entretanto, não há um histórico exato de quando ele realmente surgiu.

 

Imagem possivelmente da década de 1920, mostra a capela ainda situada ao lado do cemitério. No local hoje existe apenas uma construção de madeira reservada a “Festa de Finados”. Foto por Martim Cesar Woehl

 

Com base nas próprias lápides, os túmulos mais antigos do cemitério são os de Catharina Clemente de 1892 e Nicolau Hake de 1896, porém existe a possibilidade de existirem túmulos anteriores que se perderam.

 

Lápide de Catharina Clemente contendo as inscrições de nascimento e falecimento. Foto por Eduardo Silva

 

Lápide de Nicolau Hake, esposo de Catharina Clemente. A lápide segue estilo semelhante ao de Catharina. Foto por Eduardo Silva

 

Na comunidade, se conta a história de que a primeira pessoa enterrada ali foi uma criança que morreu em época de enchente. “Como não dava para transladar o corpo até o cemitério de Rio Negro, eles fizeram o enterro ao lado da igreja. A partir dali, começaram a realizar enterros de pessoas da comunidade, porém não existem registros de que a história tenha realmente ocorrido desta forma”, diz.

 

O terreno do cemitério está escriturado em nome da diocese de Joinville, mas o local não é de domínio público. Ele é mantido pela própria comunidade.

 

“Depois que realizei esse estudo, a associação de moradores e a diretoria da capela discutiram formas de preservar o cemitério. Eu fiz um inventário de todos os túmulos com quem consegui entrar em contato e isso fez a comunidade olhar com mais cuidado para o cemitério. Hoje o local tem caixa d’água, banheiro e eletricidade. Ocorrem cerca de três a quatro enterros por ano e está mais voltado para os próprios moradores da comunidade”, conta.

 

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Renascimento

Dentre os relatos mais interessantes, Eduardo conta que um pé de cedro nasceu no meio de uma das sepulturas do cemitério.

 

“A família me procurou um dia, perguntando como fariam para cortar a árvore. Comentei que eles poderiam contratar um guindaste para a retirada do cedro, mas também sugeri a ideia de colocar uma placa na própria árvore, e deixá-la lá como um símbolo de renascimento, e eles concordaram. O pé de cedro está no local até hoje com uma lápide”, conta.

 

Segundo o professor, existem pessoas de várias cidades enterradas na localidade, inclusive os pais do cardeal mafrense João Braz de Aviz. O local também guarda túmulos de crianças e indigentes que não deixaram familiares ou descendentes.

 

“Como não há cuidado, muitos destes túmulos vão se perdendo com o passar do tempo. O cemitério poderia estar mais preservado ou ser uma rota turística, mas como ele não é público, a situação fica mais complicada, pois não há relação com o Estado”, diz.

 

Preservação

Eduardo ainda conta que sua intenção inicial, além de resgatar a história, era realizar um estudo para viabilizar o tombamento do cemitério, porém, no decorrer do projeto, percebeu que seria inviável.

 

“Segundo a legislação, depois de tombado, ninguém mais poderia ser enterrado e o interessante, é deixar o cemitério vivo. A comunidade também não concordaria. Por isso, preferimos partir para um processo de conscientização sobre a importância de manter os túmulos, preservar o local e sua história e garantir mais infraestrutura para a população”, finaliza.

 

Jazigo de madeira, sem inscrições. Foto por Eduardo Silva
Túmulos abandonados. As flores denunciam alguma visita, porém o estado material é de repleto abandono. Foto por Eduardo Silva
Túmulos de protestantes que demonstram desenhos bem diferentes do conjunto católico. Foto por Eduardo Silva
Muitos dos túmulos simples são infantis. Foto por Eduardo Silva
Um dos túmulos mais adornados, porém a má conservação compromete sua preservação. Foto por Eduardo Silva
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